segunda-feira


uma poesia
de cintura e boca

domingo

Sobre a linha tênue de não-ser o outro.

quinta-feira

"

tantos poréns que o consolo é dizer amém

denilson

terça-feira

Jung

Não é possível sentir os terrores do gelo polar na simples leitura de um livro, nem se escala o Himalaia assistindo a um filme. O amor custa caro.

Gêmeos

    Nós temos um peito que tamborila, vibra, arde, ora paciente, ora inconstante. Sempre passível de mudança. Temos um olhar que fotografa em alto contraste, luz e sombra gravam melhor qualquer imagem, os detalhes que vemos não cabem num retrato. E o retrato sobre a mesa por si só é uma paródia, uma anedota, uma saudade, uma derrota. Eventuais vitórias nos vêm quando finalmente nos vamos, e vamos sós, solidariamente desamparados, avessos às gritarias que tem no mundo.
     Que nosso mundo gira em torno de um milhão de sóis, e não é acaso.
     É o ocaso balbuciando outonos que perduram adentrando todo e qualquer verão. É um adeus que não se basta, é um túnel circular colidindo partículas em big bangs, um universo tão público quanto particular. Se quer entrar, antes bata. Se quer ficar, nos invada. Com um certo jeito, com um certo jogo, sem a intenção de intuir nada. Estamos sujeitos à avaliação depois que passar o furor de todo êxtase, de bom ou de ruim. Somos tristes, porque entendemos de sorrisos e sorrisos tem hora que são raros, isso nos afeta. Entretanto, somos alegres, já que aceitamos a melancolia como uma visita das três, quando o cheiro do café invade a cozinha. Não somos dois, somos como os sóis, milhões.
     Na nossa cozinha estão os encontros que interessam. Com eles enchemos a caixinha do sal, o conteúdo da panela. Enxergamos a arte porque de nada adianta essa decência toda de que se vestem os manequins. Temos espírito de liberdade, mas enclausurados nesse mundo sem fim. Não é questão de contradição, ouça um tanto. Quem lá questiona um paradoxo? Somos armados de axiomas que se mistificam, somos labirintais, com um caminho nosso que leva direto ao centro. Não é preciso acreditar, dizer que sim com a cabeça. Se chegar a nos sentir, certamente entenderá, e as palavras se tornam desnecessárias. Por isso falamos muito: os de nós que se calam, ainda assim falam. Falam muito, falam pra dentro mirando o mundo, pichando um muro que divide os lençóis. Fazemos muralhas inteiras portando apenas estandartes sob os cabelos.
     E estamos atentos. Mercúrio se move, amamos movimento. Detestamos o afeto que seja simplório como só enxergar o mar. Necessitamos que se entenda o quebrar da onda na areia, necessitamos entender cada fio que trança na teia, exigimos nitroglicerina que soe serena sob a luz de um luar. Estamos sempre partindo em busca de um lugar pra ficar, e somos todos terrenos.
     E por mais que se explique, dói a cabeça tentar decifrar. Não temos fórmulas prontas, melhor fechar os olhos, dar um jeito novo de entender, um corpo pra abraçar. Estamos de mãos dadas, seja com o afeto, seja com o nada; lidamos apenas com os laços e com suas ausências. Encontramos força quando cansamos de nossa própria clemência. Chamam a nós de egoístas, mas francamente?
     É só que somos jovens demais pra só sentar e esperar.

Por Yuri Emanuel

quinta-feira

Hay que endurecer

Abri a porta do apartamento sem pestanejar, pelo menos não naquele momento. Dois anos dividindo a mesma cama não tinham sido suficientes pra crer que suas atitudes eram mesmo suas. Sempre fui meio comunista e ligado nessa coisa da revolução, mas não chegaria a imaginar que a chave de casa fosse, talvez, a única coisa que compartilhássemos naquele momento. 

Não dava mais. Eu queria alguém pra dividir a cama, os problemas, os becks. Você queria um idiota pra chamar de seu, apresentar pras amigas e dormir cheirando seu cabelo enquanto um dos seus 'amigos' não estivesse por perto (mais especificamente na minha cama, comendo a minha mulher e usando as minhas roupas).

Que comunista que nada! Você queria mesmo era alguém otário suficiente que te fodesse quando você bem quisesse e não ligasse pros pesadelos noturnos que costumavam te perseguir - além dos diurnos também, mas esses tinham nome, endereço e vez ou outra te mandavam umas flores baratas com sexo em forma de cartão.

Só de pensar que dormi noites e noites naquele sofá de merda na casa do Nando porquê você resolveu cismar com a Renata do 402 me doem as costas. A menina era uma criança! Tá certo que ninguém te liga 3 da manhã pra trocar a luz da cozinha, mas precisava disso tudo?

Maldita transpiração! Minhas mãos suavam tanto que deixei cair o molho de chaves e, pensando que não tava nesse mundo, você acordou. Olhos apertados no meio de uma cama revirada. Papéis e papéis por todos os lados, porque eu realmente não cansava de levar trabalho pra casa. E uma calcinha que era quase um pecado pra aquela hora do dia. Mas eu estava decidido, não importava - pelo menos não mais.

Repassei mentalmente o guião que tinha pensado até ali, apanhei as chaves e tendi até você. Esvaeci-me de joelhos ao lado da cama tentando conferir se todos as falas estavam em ordem e completas, bem o inverso da vida da gente. Me assistias com olhos quase fechados enquanto o resto de sol da janela fitava um sorriso quase imperceptível no canto da boca, daqueles que você sorria quando eu discursava em alguma marcha do partido ou algo assim. Acho que supunhas eu estar pensando em mais uma declaração apaixonada, um punhado de palavras doces ou somente um 'tá afim agora?'. Consegui encontrar teus olhos por mais que expressão alguma conseguisse ler neles; era a hora. 

Antes que eu pudesse transferir qualquer bocado de pensamento pros lábios, você já estava afundada na beirada da cama se livrando dos sapatos nos meus pés e daquela mochila que, não sei como, não fazia parte do meu corpo ainda. 
Onde estava minha indignação? Nunca tinha lido a bíblia mas não precisava ser cristão, evangélico ou budista pra saber que a força de Sansão foi-se toda com seus cabelos. Nesse caso as madeixas também poderiam ter o nome de samba-canção ou camisa, não importa - pelo menos não agora.

Horas e horas de articulações, justificativas e reflexões jogadas no ralo com um mordisco na orelha, um suspiro na nuca e mãos talento-delicadas (se é que isso existe - se é que você existe).

Este era eu: derrotado e entregue aos braços do inimigo. Os planos haviam mudado de tal forma que meus lábios tinham sido censurados pelos teus enquanto meu léxico se resumia a alguns poucos gemidos abafados. Ideologias de merda, minha revolução era você.

terça-feira


Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento , pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. 
Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade cotidiana por essa mesma atração da própria impotência. 
São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.


Livro do Desassosego
B. Soares

sexta-feira

forgetting curve

   Há algum tempo atrás um velhinho descreveu uma característica do cérebro em relação ao esquecimento das coisas como Curva do Esquecimento. O tal velhinho, Ebbinghaus, tratou a capacidade que o cérebro tem de transferir nossas lembranças de uma memória que pode ser facilmente apagada pra outro tipo de memória que tem uma duração maior.
   Talvez seja algo como isso aconteça também em relação ao que fazemos. Pintar quando criança e depois de alguns anos não mais, gostar de conhecer pessoas novas e depois de algum tempo isso já não ser algo importante. Algo como um esquecimento gradativo de ex-prazeres. 
   Não posso negar que após o início da minha vida universitária uma parte do que eu gostava de fazer enquanto vadia de ensino médio perdeu quase que totalmente a graça (vez ou outra ainda encontro função em habilidades exóticas). 
   Primeiro sinto uma puta saudade de escrever algo que não sejam lamentações, relatórios de projeto ou a lista do supermercado. Aqueles textos com um tom meio-adolescente-meio-desbravador-meio- idealizador tinham um prazer quase sexual nas entrelinhas. Um pouco de crônica, um pouco de sátira, só talvez e quase nunca um pouco de mim. Era mais confortável e, sem pestanejar, mais fácil. Colocar-se no lugar do personagem e fazer inventação de histórias, sentidos e mundos que hoje em dia estão jogados em alguma caixa no quintal de casa.
   Segundamente posso falar sobre a saudade dos meus pincéis, dos rabiscos e dos mil papéis espalhados pela casa todas as horas do dia. Mas sobre essa saudade tenho a certeza que não quero prolongar a falação - pra não aumentar o vazio que já existe.
   As vezes sinto algo pra ser feito ... algo realmente bom pra ser feito, escrito, desenhado ou pensado em cores. Mas a vontade logo passa. É como uma impossibilidade, uma impotência. 
   Tenho a ideia formada sobre os fins, sei como e o que fazer no começo, mas há algo entre o esboço mental e levar minhas mãos até os meios.
No fundo penso que meu pai, rei das habilidades quase desprezadas, tem parte da culpa nessa tal culpa por esquecer. Era praticamente impossível resistir a aprender algo que ele fizesse ou pensasse fazer. E a gente nunca esquece algo que nunca soube fazer, certo? 

segunda-feira

É um samba essa vida da gente


Sério, isso passa. Te digo porque aconteceu comigo. Essa falta de ar misturada com uma furadeira te moendo o coração já passou aqui por casa. Não interessa em que parte do caminho as coisas se perderam - se é que algum dia elas andaram juntas. Não interessa quem esqueceu a tampa do vaso aberta (se bem que eu acho isso muito importante) ou colocou açúcar demais no café. O que de fato vale é quem consegue colocar a cabeça no travesseiro e se jogar nos braços de Morfeu sem medo de que a consciência lhes dê um tapa na cara. 

É triste dizer, mas algumas pessoas não são boas de troca. Eu, por exemplo, não nasci no mercado de Caruaru por um mero engano. As vezes lembro dos dias em que o último dos nossos - meus e do meu ex-amor - sim pois tudo, caro leitor, está fadado a ser ex um dia - desejos era sair da cama e reflito: será que a troca tão efêmera compensou? Não falo por mim, eu sempre fui fácil demais de se conquistar, mas por ele, o ex-amor. Que quase ninguém sabe, mas que precisa de alguém carinhoso por perto (e teria, se soubesse manter essa pessoa por perto). 

Acho que no fundo, no fundo o que realmente dói não é a ação em si, mas o sujeito dela. Os sentimentos que a gente cria não surgem pela traição, pela felicidade ou pelo próprio sentimento. São pela pessoa. Não se preocupe, isso vai passar. Mais dia, menos dia. A ferida fecha pra que um pouco mais à frente outra pessoa volte a sambar de salto agulha (ou de all star, mesmo) em cima dela. Enquanto isso, vá tomar um sol, levar a cadela do vizinho pra fazer cocô. Vá. Ficar em casa remoendo falsas certezas não vai te fazer melhorar e muito menos impedir que você mofe junto com o sofá.

Poderia falar mais um pouco sobre como não cortar os pulsos ou como virar alcoólatra em uma semana por causa da ex-namorada, mas isso é assunto pra outras linhas, em outro dia. Agora eu vou tomar uma cerveja, rever uns amigos, ler alguma coisa. Se você não fizer a fênix e transformar as cinzas em uma make nova, vai continuar escutando Damien Rice antes de dormir e afogando as mágoas naquele pote lindo de Nutella. Tenho certeza que quando eu voltar, esse aperto já vai ter se afrouxado um pouco. Não se desespere pela dor, mais tarde você vai se xingar o suficiente por não ter dado cabo dela antes.

Sobre tablaturas

Tenho confundido o meu na tentativa de encontrar o teu ritmo, todos os dias. Procuro os compassos, solfejo contigo .. mas isso, de tudo, não é tarefa simples. Entendo as tuas pausas mas não me basta um único verso. Quero de um todo, a canção. De agora em diante sabes de onde continuar. Não te busco mais. 


when we found that we could not make sense
you said that we would still be friends
but i'll admit that I was glad that it was over
Now and then I think of all the times you screwed me over
but had me believing it was always something that I'd done
but i don't wanna live that way, reading into every word you say

terça-feira

Week

algo que me faça voltar a gostar da humanidade ou pelo menos torne-a suportável começar escrevendo seu nome no buscador e terminar escrevendo o meu e o unicórnio disse: se você acreditar em mim eu acredito em você continuar uma conversa que sei que não vai chegar onde quero começar uma conversa que não quero ter tiro de g3 a vida só vai valer se pra onde eu for você vier fechar a camisa no frio sem por quê deveriam os corpos terminar em pele?

descrita: PINTO, Talita


As vezes a vontade da gente vai diferente. Já não queremos mais a cama daquele lado, a torrada com aquele queijo, trepar daquele jeito ou a cerveja trincando os dentes. 
Tem dia que queremos mudar o mundo; acabar com a fome na África, dar um chute no cu dos EUA, blablabla. Outros dias está tudo bem ficar enterrado na cama ou na beirada de si mesmo remoendo qualquer última certeza de pensamento, só lembrando do final do filme ou a noite.

Acho que é mais ou menos assim que te vejo.
Ombros largos, riso grande, peito forte. 

Creio que não há nenhuma designação única praquela aguinha parada na poça da rua, é simplesmente água. 
Ninguém liga até afortunadamente meter o pé sem querer e gritar uns caralhos. 
Por pura falta de experiência um ou outro se afogam naquela poça maior, a piscina. Repito: por pura falta de experiência, por que ela continua lá sendo apenas água e estando irritantemente parada.

Por isso o mar me encanta. Devora o que lhe apetece e devolve quem de nada serve. 
Acho que é mais ou menos assim que você é. Um pouco só água, mas na maioria das vezes mar. 
Mar de engolir naus e seus capitães; de guardar segredos e sereias. 

Gosto de você assim, sendo quase sempre mar. Sendo mulher inteiramente cíclica, sem insinuação rasteira ou palavra de metade. Que corre atrás de si e, como o mar, volta sempre às costas já visitadas - naufragando ou não em braços de outro mar.

domingo

Prende o cabelo e com clara e gema faz o dia

Não sei porque parece ser tão difícil de demonstrar afeto e algo mais à alguém. Em quase todas as experiências anteriores eu não precisava dar o primeiro passo, no restante o acaso tratava de me ajudar. O fato é que já faz um tempo e acho que o destino esqueceu de jogar um pozinho da sorte no meio da história.


Dar o primeiro passo é mais difícil do que parece. Se isso já é difícil pra mim que nunca tive dúvidas - ok, isso tá mais pra: que hoje tenho certeza - do que quero, imagine pra você que está com um Katrina na mente. São perguntas, pressões, angústias, medos ... e tudo isso in so many levels.
Não te digo que é fácil ou que preconceito é mais uma invenção do homem, não é. Está aí. Estampado em alguma camiseta, naquele olhar torto. Na agressão. Nas palavras. Na aceitação fingida. Infelizmente nas palavras. Existe.


Quero andar de mãos dadas, rir junto e mandar dois beijos pra quem nos olha torto. Essas coisas que os amigos falam que é demodê-brega-etc, mas que super ficam felizes por você e super queriam estar fazendo também. Quero ter coragem pra levantar da cama quentinha pra preparar o café. Há uma hora em que se cansa de fazer isso com pessoas diferentes todo mês/semana. Quero que o meu querer seja fazer isso contigo. Do lado. Together.


Acho que sou paciente. Acho que quando a paciência acaba fica complicado. Acho também que estou ficando sem norte. Até quando não me custa por uns vinte minutos jogar algumas palavras num papel, fico confusa. Não sei se uso presente, passado... Confundo os tempos. Os sujeitos.


Sei o que você está pensando, que eu sou estranha e só mais uma psicopata por aí; mas não é bem assim. É só paixão. Só. Aquela coisa de uma bolha imaginária surgir quando se está perto. Tudo fora some e, lá dentro, o universo parece ser realmente interessante.


Bom, as coisas não são lindas assim como parecem. Ainda há perguntas, medos. Há distância, por mais perto que se esteja. Sobra espaço entre. É quase um hiato. 'Quando as vogais se encontram em sílabas diferentes, embora estejam em sequência.' Esqueçamos o bom português e fiquemos juntinhos, assim colado, de quase não caber. Espero aqui até hoje. Talvez amanhã; depois não sei.
Time to time.

Prece





Talvez se eu começar a me desculpar agora, as desculpas possam parecer mais sinceras. Me pedes opiniões. Dou. O que posso, dou. Deito e tento me enganar, penso que no outro dia será diferente. Se nem aos amigos mais próximos consigo enganar, quanto mais a mim. Basto-me. Conta das angústias, dos medos e das certezas. Perco palavras e acho - meio que por um acaso pré-definido - só aquelas que posso te dizer sem magoar.


Sem assustar.


Faço-te tantas orações naquelas palavras. Rogo pra que depois não choremos por nós, leites derramados. Pra que não sejamos ausentes um do outro e nem metades perdidas. Que sejamos inteiros e completos, ainda assim juntos. Entrelaçados. Inteiros que passam e se lêem. É gente que tem besteira de nada em comum e que dá um jeito de se encaixar minimamente em peculiaridades. Quando tá junto nem sabe de si. Sabe só dos dois. De dois. Mas não te preocupes e nem me procures que isso passa. Amor é como esse fumo que me queima a garganta agora.


Dá e passa.


A gente puxa, queima e solta. Não me desejes como fumaça, me desejes como escudo.


(Talvez isso pareça um texto fúnebre mas acho que não estou tão perto de morrer *hope so*).

A vida as vezes pode não ser tão justa quanto falam por aí.

Reza a lenda que o que nosso de direito sempre volta pra gente, que só permanecem nas nossas vidas as pessoas que são delas de fato, etc ...

Meu problema é: fazer meus sentimentos se decidirem. Sempre achei que isso fosse fácil, mas puta que pariu! Quanta complicação - sim, esta sou eu falando de complicações pra vocês.

Pode parecer estranho quando digo que o primeiro grande amor da minha vida foi uma colega de classe do primeiro ano do ensino médio (não, eu nunca gostei de nenhum garoto antes) *dyke pride*, e mais estranho ainda quando digo que casaria fácil com ela hoje em dia. Sinto falta dela nos meus dias. Das músicas, das conversas, dos toques desajeitados, do olhar e mais ainda da capacidade que ela tinha de entender tudo que eu sentia.

Eis que o destino, então, na sua incrível vontade de fazer as coisas melhorarem - ou não, a levou pra longe de mim e eu mais ainda pra longe dela. E porra, ela me faz muita falta.

Fomos esudar em cidades diferentes, conhecemos outras pessoas. Crescemos.

Nos apaixonamos por outras pessoas.

Conheci, de novo, um grande amor. Aquele que te faz ficar acordado a noite pensando em como seria fazer uma viagem à sós. Que te faz esquecer o livro que você foi buscar na biblioteca porquê passou antes na sessão do curso dela e achou um que ela tava procurando. Enfim, acho que já me entenderam. Era como se o amor de antes não tivesse acabado, mas podia esperar. Sem tirar a chance do novo gostar de me fazer uma pessoa melhor, mais feliz. E assim por diante.

Não sei se consegui me fazer entender, nem estou num dos meus momentos mais sóbrios pra me preocupar com isso. O que me confunde, é como lidar com todos os sentimentos, todas as pessoas, todas as situações. Eu não sei.

and tonight i give you my heart;

Sou apaixonada por ela desde o segundo ano da faculdade. Faltava o ar quando ela passava por perto, havia de segurar no braço do amigo mais próximo pra tentar não cair mais da cadeira que estava. Era o sorriso mais lindo, o andar mais seguro e o 'olá' mais musical que me era dado. Meu coração acelerava, mãos tremiam - e só não falo do rosto avermelhado porquê de uns tempos pra cá tenho ficado envergonhada por tudo.
Nosso contato não havia passado disso: poucas palavras e meu olhar desajeitado, que quando ela percebia eu tratava de disfarçar.


Como todo amante logo arrumei uma desculpa pra trazê-la pra perto de mim. Tinha que ajudar uma amiga com umas pendências amorosas e lidar com homens nunca foi meu campo de estudo, como sabemos. Então resolvi unir o shoyu ao sushi. Ela era o sonho de muitos marmanjos que conheço/vou conhecer e lidava com isso melhor do que eu com o copo de cerveja.


Não deu outra, nossa amiga engatou o namoro! E eu ... ah, eu achava a coisa mais linda do mundo ela toda preocupada com o andamento do casal. Se tava dando tudo certo, se eles tinham se visto, etc ... e sim, nos víamos todo dia. E mais um dia, e mais um ...
Como se o resto de tudo desaparecesse e só o nosso mundo fosse realmente interessante. Quando a falta de tempo não ajudava e nossos horários se tornavam impossíveis, a saudade era tanta quanto os dias que teimavam em demorar.


Perdi a conta de quanto tempo passava pensando no que cozinharíamos quando ela viesse novamente. Amor é isso, é abrir portas e janelas pra entrar, e mesmo quando não desejamos a saída, mantê-las abertas. Cativar é dar motivo pra voltar.
Nossos dias são bons, nem muito frios e nem muito quentes; são aconchegantes.


Discutimos música, mas ela escolhe a playlist; discutimos culinária, mas eu escolho o cardápio.
Paixão é aconchego, é completude.

segunda-feira

Nada a Perder - Gabito Nunes

Não me venha com "temos de conversar, aconteceu uma coisa". Uma coisa não simplesmente acontece. Você precisa apertar um botão pra isso tudo "simplesmente acontecer". Duas pessoas não resolvem dar uma escapulida sem antes um bom flerte, alguma negociação e um punhado de telefonemas.


Todos passam por isso, todos vivem aquele fragmento lúcido de tempo em que é necessário decidir entre resistir ou fazer a coisa - esta é diferença entre nós. Duas pessoas resolveram acontecer. Você está entre elas e é isso que dói um pouco. Outro erro grostesco na construção das suas desculpas esfarrapadas: não há mais o que conversar. Vamos evitar olhares de lamentações, desprezos e resignações.


O que você quer? Absolvição? Aplausos? Ver nos meus olhos uma ponta de dor? Que eu desague um rio de lágrimas? Correção? Desculpa entrar na brincadeira sem julgar seu acontecimento como uma mera molecagem credora de castigo. Nunca fui sua mãe e você já não é mais criança, posso afirmar, apesar da sua ingenuidade em pensar que assim a coisa soaria mais honesta. A pior ingenuidade é achar-se esperto.


Não importam os pontos já somados ou o quanto você foi legal, seremos julgados eternamente por um único e isolado e grande erro. Sinto muito, é assim que funciona. Não existe justiça nisso que chamamos de "vida". Às vezes somos resumidos por aquilo que só fizemos uma vez, se acaso aquilo que só fizemos uma vez modificar alguém para sempre.


Aliás, foi melhor? Foi bom? Me diga. Me conte. Roteirize a cena pra mim. Vamos lá, eu quero saber. Entrei no seu jogo e estou dando uma oportunidade pra você se gabar. Não desperdice. Pegue. Foi bom? Foi melhor? Espero no mínimo um sim, que tenha valido a pena, porque você pôs a perder algumas coisas que até ontem pareciam importantes. Defenda-se.


Sabe, sobre esse seu "amor" que você está dizendo. Eu posso ouvir você dizer milhares de vezes, mas não significa que uma junção de palavras vai me fazer sentir como era antes, tudo outra vez. Seria até bom se você ficasse quieto e deixasse a reputação do amor intacta. No futuro ouvirei de alguém que esse alguém me ama e quero ter um conceito melhor sobre isso.


Vamos fazer assim. Sem traumas. Sem dramas. Sem dores. Seria exagero dizer que você faz o mundo melhor. Você não é pra tanto, mal dá pro gasto. Mas que fica tolerável, não posso negar. É que... já não estamos nos falando direito mesmo, então acho que preciso aproveitar que nós dois não somos uma aposta segura a longo prazo e que também não sou assim, tão louca por você.


Nada parece fazer diferença agora e tudo indica ser uma boa hora pra largar mão disso de qualquer forma. Não é como se estivéssemos perdendo algo. Eu vou dar uma volta, refrescar as ideias. Quando eu voltar, não quero mais vê-lo aqui. Se ainda estiver, então entenderei que sou eu quem deve sair.





domingo

Ela e ela - Antonio Prata





Fui apaixonado pela Luana da primeira à quarta série. Lembro daquela época como se fosse uma novela mexicana: pernas bambas no recreio; rápidos toques, desajeitados, no pega-pega; noites sem dormir, com um nó na garganta, só pensando nela. Amar é mesmo uma encrenca.

Se já era difícil para mim, um menino, gostar de uma menina, imagino como seria se meu coração batesse forte por alguém do mesmo sexo.
Tenho certeza de que agora, enquanto lêem esse texto, muitas garotas estão ficando nervosas.
Talvez as bochechas tenham corado. O coração acelerado. São garotas que, assim como eu, quando se deitam na cama, pensam em alguma Luana, com muito amor – e culpa. Por que será que é assim? Por que é tão complicado aceitarmos que garotos possam amar garotos e garotas apaixonem-se por garotas? Realmente, não sei. A homossexualidade é tão velha quanto o preconceito.


O que aprendi da Luana pra cá, é que se tem alguma ordem da qual não podemos fugir é a do próprio desejo. E isso é bom. É como se houvesse uma bomba-relógio dentro da gente, cujo tique-taque nos obrigasse a caminhar em direção à felicidade. Não temos escolha: ou lutamos pelo que queremos ou definhamos. No caso de um pedaço de bolo, da vontade de sair na véspera de uma prova ou outra coisa menos, beleza: abrimos mão do que desejamos e engolimos achateação. No caso do amor, não: durante nossa breve passagem pela Terra, não encontraremos nada mais sério do que ele. nem o trabalho, nem a poesia, o dinheiro, a seleção brasileira, o mico-leão-dourado, a capa da revista, nada, nada pode vir antes do amor na ordem geral das coisas.


Feliz ou infelizmente, para homo ou heterossexuais, não há livre arbítrio nas coisas do coração. Não elegemos a pessoa por quem nos apaixonamos.
Apenas descobrimos, com as pernas bambas, as mãos suadas e uma flecha no peito, que é aquele ou aquela ali que queremos embaixo dos nossos lençóis. Conquistá-lo, conquistá-la e mudar o mundo se preciso for, para ficarmos como ele ou ela é a nossa única opção.


Se a pessoa em quem você pensa na cama, quando fecha os olhos, é uma garota, não há nada de errado. O caminho talvez seja um pouco mais duro, alguns vão achar estranho e talvez haja risadinhas pelas costas, mas isso tudo é fichinha perto da imensa felicidade que nasce quando, olhos nos olhos, vocês disserem “eu te amo”. A única tragédia afetiva é não amar. O resto a gente resolve.

Por que hoje é dia de alegria.

Um cerveja antes do almoço

É muito bom, pra ficar pensando melhor




Nação Zumbi